Acotirene: Cultura Afro-Brasileira em Mariana resiste
- Adrielle Ferreira e Salatiel Ponciano
- 25 de mar.
- 5 min de leitura
Associação promove atividades culturais, preserva tradições e busca reconhecimento em meio a desafios financeiros.
A Associação de Arte e Cultura Acotirene teve o seu início em 2003. A iniciativa partiu de Aluísio Augusto, mestre de capoeira há mais de 40 anos. Mestre Amendoim, como é conhecido Aluísio, dava aulas de capoeira gratuitas e distribuía cestas básicas às famílias. Com o passar do tempo, mais pessoas passaram a se interessar pelas aulas e começaram a procurar o mestre com mais frequência. A partir de então surgiram algumas parcerias e o que eram apenas aulas gratuitas tornou-se um espaço cultural, inicialmente chamado Acotirene.
Aluisio Augusto - Presidente da Associação de Arte e Cultura Acotirene
A Associação de Arte e Cultura, nomeada em homenagem a Acotirene, reverencia uma das primeiras e importantes líderes quilombolas do Brasil Colônia. Considerada a matriarca do Quilombo dos Palmares, Acotirene desempenhou um papel crucial ao promover a união entre negros e indígenas. Sua liderança a tornou uma figura consultada para diversas questões, desde problemas familiares até assuntos político-militares, orientando o povo negro na luta contra a escravização.
Sua coragem e habilidade como estrategista foram fundamentais na defesa do Quilombo dos Palmares, instalado no litoral dos Estados de Pernambuco e Alagoas, contra as forças coloniais. A escolha de "Acotirene" para denominar este espaço cultural reflete a busca por inspiração em seus valores de resistência, união e luta pela liberdade.
A Associação Acotirene, localizada na Rua Dom Silvério, número 426, no centro de Mariana, próximo à Igreja de São Pedro, oferece diversas atividades culturais abertas à comunidade. Em sua sede, são realizadas oficinas de Artesanato e Artes Plásticas, além dos ensaios de Congado, que acontecem todos os sábados. Já os ensaios de capoeira são realizados durante a semana no Sindicato Metabase de Mariana, situado na Rua Bom Jesus, número 314. Todas as atividades da Associação são abertas à participação de qualquer pessoa interessada.
Roberto de Lima é membro ativo da Associação desde 2016, trabalha como escultor, artista plástico e restaurador. Além de exercer a função de secretário da instituição, ele ministra aulas de capoeira, desenho e pintura. “Reunir atividades como a capoeira, o congado, e diversos tipos de arte, torna a Acotirene algo único. Aqui reunimos, trabalhamos e difundimos a cultura negra, é realmente um trabalho social que fazemos, e tentamos contribuir de todas as formas para o fortalecimento dessa cultura, aqui em Mariana”, ressalta Roberto.
Durante as atividades de artesanato e artes plásticas, os alunos e pessoas interessadas praticam entalhes na madeira, utilizam materiais que seriam descartados para a criação de instrumentos musicais, decorações, pinturas e enfeites diversos.
Muitos desses materiais são apresentados na exposição “Tudo se cria, nada se perde”, que aconteceu durante o mês de março. A exibição foi aberta ao público às quartas, das 08h às 11h, às quintas, das 09h às 12h e aos fins de semana, das 08h às 16h.
Maria Eduarda Santos, aluna do curso de Serviço Social da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), é uma das frequentadoras da associação. Maria Eduarda conheceu o local através da capoeira, uma atividade que a associação fez em conjunto com a UFOP e então passou a frequentar o espaço cultural, especialmente das atividades de artesanato e congado.
Na visão de Maria, espaços como a Acotirene desempenham um papel fundamental na divulgação da cultura afro-brasileira em Mariana. Ela acredita que esses locais proporcionam à comunidade o acesso a costumes, tradições e conhecimentos sobre a ancestralidade das pessoas negras que podem não ser amplamente conhecidos.
Durante a entrevista, a estudante de Serviço Social lamenta a falta de apoio a associação, e enxerga essa situação como um prejuízo para a comunidade e para o município.
Maria Eduarda Santos - participante das atividades da Acotirene
A cada sábado, a associação promove os ensaios de congado, uma importante tradição da cultura afro-brasileira que mistura música, religião e dança. Durante os ensaios, instrumentos como agogô, atabaque, djembê e tumbadora desempenham papel fundamental, acompanhando os cânticos do ritual que reforçam e preservam a rica herança cultural da comunidade.
No último dia 15, membros da associação se reuniram para ensaiar, também aproveitando o momento para preparar a tradicional paçoca, prato típico da culinária brasileira que, assim como o congado, faz parte das vivências e celebrações que unem o grupo.
Sobre o ritual do ensaio de congado com paçoca, Aluísio explica que durante as festas para santos, como Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora Senhora do Rosário, São Benedito, e Nossa Senhora das Mercês, enquanto os povos negros escravizados cozinhavam, as crianças faziam a paçoca, e todos que queriam comer tinham que participar de uma roda em que cada pessoa tinha que “pilar” a paçoca. Na roda, as pessoas faziam suas preces e era um momento de alegria para eles.

A importância de espaços de cultura negra para mariana
Vittor Policarpo representante do Movimento Negro Mariana, reflete que o espaço da Associação de Arte e Cultura Acotirene é importante para a preservação e a valorização da cultura afro-brasileira na cidade.
“É um reconhecimento da luta do mestre Amendoim em prol da cultura negra em Mariana, e acredito que isso pode ajudar, por exemplo, a colocar as propostas, os eventos dentro do calendário municipal, para fazer com que ele tenha financiamento público para fazer as coisas acontecerem do jeito que deve acontecer, com infraestrutura correta, com transporte, com alimentação para todo mundo e com respeito a essas pessoas que movem a cultura negra e Mariana” afirma Vittor.
Vittor também reforça que o município deve valorizar mais a cultura negra para além do Novembro Negro, uma vez que o mês é apenas uma data, e deve-se pensar sobre o ano inteiro.
No final de 2024 a associação foi reconhecida como utilidade pública municipal, por meio do Projeto de Lei n.º 98/2024. O título é concedido a instituições sem fins lucrativos que prestam serviços relevantes para a sociedade. Esse reconhecimento permite que a entidade tenha acesso a benefícios, como a possibilidade de firmar parcerias com o poder público e acessar recursos para fortalecer suas atividades.
Sobre esses recursos, o Secretário de Patrimônio Cultural e Turismo, Marcos Batista, explica que “as emendas parlamentares, sejam impositivas ou não, são aprovadas pelo Legislativo e destinadas a projetos específicos. O Executivo tem a responsabilidade de executar esses repasses, mas isso ocorre dentro dos trâmites legais e orçamentários, que podem envolver prazos administrativos, análise técnica e ajustes financeiros.”
Contudo, Aluísio afirma que desde a concessão do título de utilidade pública municipal, a associação até os dias atuais não recebeu nenhum repasse financeiro. Desde o início, a Associação Acotirene sobrevive de doações e parcerias. Para a realização dos eventos e encontros, segundo Aluísio, muitas vezes foi necessário trocar serviços e dias de trabalho para conseguir auxílios e parcerias.
No mês de abril, a associação iria realizar o Encontro Nacional de Capoeira, maior evento já organizado pelo grupo , que reuniria visitantes e capoeiristas de diversos países, entretanto, por falta de auxílio, o evento teve que ser cancelado. Aluísio conta que a Acotirene contava com o repasse do município para a produção do Encontro, porém, foram avisados, por meio da prefeitura, que esse auxílio seria adiado. Até o momento, a data do evento segue sem ser remarcada. “A associação tinha uma emenda parlamentar para receber, aí a prefeitura disse que só vai entregar depois do evento”, ressalta Aluísio.
No dia 13 de maio, em que se comemora o dia de Nossa Senhora de Fátima, a Associação promoverá o Encontro de Ervas e Bênçãos, destacando a importância da Acotirene no contexto cultural da cidade e seu papel no desenvolvimento da cultura afro-brasileira. Para acompanhar a Associação de Arte e Cultura Acotirene e os próximos encontros, basta seguir a página deles no Instagram: @acotirene_artecultura.
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