Cachoeira do Campo guarda referência histórica da arquitetura e arte no Brasil
- Maysa Mendes e Sarah Moreira
- 12 de fev.
- 6 min de leitura
Atualizado: 13 de fev.
Uma das mais antigas igrejas de Ouro Preto, a Matriz de Nossa Senhora de Nazaré, localizada no distrito de Cachoeira do Campo, é guardiã dos início do estilo do barroco mineiro e da história de Minas Gerais

É na Praça Filipe dos Santos, no distrito de Cachoeira do Campo, em Ouro Preto, que um prédio de fachada branca e amarela se destaca no local. A Igreja Matriz de Nossa Senhora de Nazaré, que parece simples externamente, guarda estruturas arquitetônicas e artísticas impressionantes. Em seus detalhes e entalhes, a Igreja conta mais de 300 anos de história de Minas Gerais, em especial da Vila Rica, antigo nome de Ouro Preto.
Datada de 1710, a Parochia de Nossa Senhora de Nazareth dos Campos de Minas, seu nome original, foi a primeira grande instituição da Igreja Católica construída em terras mineiras. Fernando Siqueira, professor de História da Arte da rede municipal e da Fundação de Artes de Ouro Preto (FAOP), explica que o surgimento da Igreja se deu durante o Ciclo do Ouro, em conjunto com o crescimento da Vila Rica.
O distrito era o local onde, na época, as pessoas com poder procuravam se estabelecer: “Dizem que os poderosos da época não gostavam do clima de Ouro Preto, nem do clima, nem do relevo. Dizem que Cachoeira do Campo tinha um clima mais ameno, um pouco mais de sol e também tinha um solo fértil para plantar. E aí, eles fundaram a paróquia, ela é até anterior a construção da igreja. A igreja surge como um firmamento ali de várias irmandades, que patrocinaram a construção dela”, informa o historiador.

Aproximadamente 15 anos depois da instituição da paróquia, a edificação da Igreja é praticamente finalizada e, em meados de 1725, já recebia fieis em seu interior. Decorada com o Estilo Nacional Português, característico da primeira fase do Barroco Mineiro e que foi utilizado em igrejas construídas até 1730 no Brasil, sua estrutura conta com cinco retábulos (estruturas de madeira que ficam atrás ou acima do altar) que narram cenas bíblicas, enlaçados entre folhas de uva, colunas retorcidas, acantos (flor decorativa amplamente representada nas esculturas barrocas) e putis (representações das imagens dos anjos).

Alex Bohrer, doutor em História Social da Cultura pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e professor no Campus Ouro Preto do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), aponta e reconhece o valor dos retábulos da Matriz de Nossa Senhora de Nazaré de Cachoeira do Campo: “Os retábulos de Cachoeira do Campo são o principal exemplar do Estilo Nacional Português. São, sem dúvida nenhuma, os mais importantes desse estilo no Brasil”.
Com toda essa magnificência, o local consegue transmitir todo o esplendor de um espaço sagrado para aqueles que a adentram. Em sua capela-mor (capela principal da igreja), a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, adornada por arcos concêntricos (estrutura de sobreposição de diversos arcos), está sentada sobre nuvens. Essa representação de Maria é única no país. Na escultura, ela olha para baixo, com sua mão estendida, abençoando os devotos. A pintura de sua coroação cobre o teto da capela. Mesmo tendo a maior parte da construção já finalizada no início do século XVII, ao longo dos anos foram feitos acréscimos de elementos e modificações em sua estrutura.

2011 marca o ano em que a Igreja passou por uma restauração completa, feita com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal. Durante o processo, a pintura original do forro da capela-mor foi descoberta por meio de um raio-x feito pela UFMG. Ludmila Souza, técnica e tecnóloga em restauração da FAOP, que trabalhou na reparação da Matriz, discorre sobre a importância dessa descoberta: “É uma pintura em perspectiva, que seria uma das primeiras pinturas em perspectiva de Minas Gerais”. Apesar da pintura original estar intacta, ela não foi exposta, devido ao laço que a comunidade possui com a representação atual que é visível no teto da Igreja.
Novas reformas e novas histórias nascem no local
A Matriz está passando por uma série de reformas estruturais, como o recém-concluído reparo de seu telhado e a pintura da fachada, em processo de finalização. Padre Harley Carlos, responsável pela Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré, conta que essas reformas só foram possíveis graças à união dos fieis e ao carinho da comunidade pela Matriz: “O fruto disso é essa reforma que nós fizemos, em tão pouco tempo, sem nenhum recurso de instituições e do governo. As pessoas abraçaram a reforma da Matriz”, declarou o padre.

O pároco possui sua história eclesiástica vinculada à Igreja, para onde foi enviado em 2018, logo após ser nomeado padre. Ele relata que sente um carinho imenso pela comunidade e acredita que, com seu trabalho, consegue aproximar ainda mais a comunidade da Matriz: “Nesse tempo que eu estou aqui, uma coisa que eu tenho tentado é ressaltar um pouco a vida da comunidade, não só a comunidade católica, mas a questão cultural também. Por ser um distrito, às vezes está longe da sede e a sede do município sempre é muito favorecida com eventos culturais e tem uma visibilidade muito maior. Então, a Matriz, além de reunir para fé, reúne para valorização da cultura e das pessoas, dos artistas daqui de Cachoeira e da redondeza.”

Esse sentimento de comunidade e de valorização da cultura é refletido nas inúmeras celebrações sediadas na Matriz. Arlete Maria de Matos, professora e coordenadora da liturgia da Matriz, explica como a programação das festividades aproxima a comunidade da Igreja: “Quando é feito algo, uma programação à parte, chama a atenção também das pessoas, não só daquelas que já participam conosco dentro das celebrações na Matriz, mas aquelas pessoas também, que falam ‘mas o que que tá acontecendo ali? Deixa eu ver o que tá acontecendo’. Então, chama a atenção de outras pessoas e, também, chama essas pessoas, mas futuramente, para uma vida de fé dentro da comunidade”.
Essa grande fé e devoção a Nossa Senhora de Nazaré une a comunidade, cria o senso de pertencimento e firma o elo entre eles e a Matriz. Arlete também conta uma história de sua infância, que guarda com carinho e vê como uma manifestação desse senso de pertencimento: “Eu ia coroar em um sábado…tinha missa, mês de maio, mês de Maria. E aí, nesse dia, o que acontece? Eu tive uma crise de bronquite. E aí estava terminando a missa, eu não tinha acabado de sair da crise, não tinha ninguém para me substituir. Ele [o padre] fez com que o povo esperasse um pouquinho até eu chegar e dar conta de cantar para coroar Nossa Senhora. Então, acho que isso é uma valorização de uma criança, né? Com meus 5 anos, 6 anos, ele valorizou tudo isso e me esperou chegar. Talvez seja por causa disso que a gente está aí até hoje. Não somente pela questão da fé, mas também pela consideração das pessoas. Ele me esperou chegar para que começasse a coroação, todo mundo cantasse e a gente coroasse Nossa Senhora. Foi muito importante.”
Zé Geraldo, técnico têxtil aposentado, é coordenador e fundador do terço dos homens. Participar da criação do grupo do terço é uma grande alegria para ele: “Para mim, o mais tocante foi o início do terço dos homens aqui. Porque eu tive o privilégio de estar trazendo o terço para aqui, e daqui eles criaram vários grupos, entendeu? Então nós lançamos uma semente e ela, hoje, está gerando muitos frutos.”
A Matriz de Nossa Senhora de Nazaré é um patrimônio histórico e artístico do estado, mas também é o pilar da fé, da comunhão e da união da comunidade de Cachoeira do Campo. Esse monumento encravado no distrito conta a história do passado e do presente da comunidade cachoeirense e de Minas Gerais, como enfatiza Alex Bohrer: “Não conseguimos estudar a história da arte de Minas Gerais e do Brasil sem passar por Cachoeira do Campo e sua igreja. É uma igreja essencial para entender a longa tradição cultural, artística e estética que vai acontecer em Minas Gerais no século XVIII e XIX. Não dá para a gente entender a história de Minas Gerais, sem entender a Matriz de Cachoeira do Campo”, afirma o professor.
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