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Crônica | O Conto do Vigário é nosso!

  • Laura Lanza
  • há 7 horas
  • 4 min de leitura

Dizem que quem conta um conto aumenta um ponto e esta é a história do Conto do Vigário de Ouro Preto, contada pelos relinchos de um burro muito do conversado.


    #Pratodosverem: Na imagem, vemos uma montagem de um burro em frente à Igreja do Pilar, com o céu azul servindo como pano de fundo. A cena é montada de forma que parece que o burro está posando para uma foto.
A Paróquia do Pilar foi a mais rica e populosa na antiga Vila Rica | Foto: Laura Lanza | Montagem: Laura Lanza

Foi no Morro de Santa Quitéria, atual Praça Tiradentes, há cerca de 21 gerações que meu descendente fez história. Ele veio do Rio de Janeiro para um trabalho em Vila Rica, nossa Ouro Preto, e desde então é um dos pivôs de uma rixa que atravessava o tempo. Eu não vou falar que ele é inocente nessa, mas estavam exigindo muito de um burro cansado da escala 7 x 0. Então, vou contar a história do ocorrido, relinchada de pai para filho desde o século XVIII.


Sou descendente de um burro muito famoso, meu tataratataratataravô — ou sei lá quantos tatas — foi o protagonista de uma das maiores confusões: o tal “Conto do Vigário”. Pois é, essa história aconteceu e foi bagunçada no lombo dele, na antiga Ouro Preto. 


Contratado para um serviço especial em troca de alguns sacos de feno, meu parente ancestral carregou tanto peso que talvez nem tenha valido a pena, ou melhor, o feno. Versado em burrês, o português do meu parente era até mais ou menos, ao ponto dele conseguir entender as instruções do tropeiro ao longo da Estrada Real. 


O objetivo era chegar logo, pois o condutor já estava exausto da viagem e não parava de reclamar. Agora imagina o burro que era quem fazia o trabalho bruto: carregar para Vila Rica as imagens de Nossa Senhora das Dores e do Senhor dos Passos, uma peça tão grande que, mesmo desmontada, já dava para perceber que se tornaria a encrenca, digo, a protagonista desse conto. 


Enfim, chegando ao Morro de Santa Quitéria, eles estavam perdidinhos da Silva e, também, encantados com a vista bonita e montanhosa desse lugar até então desconhecido. Finalmente o tropeiro e seu fiel burro estavam no cenário que causaria uma disputa de gigantes. Mas uma dúvida ainda pairava no ar: afinal, para onde iria a estátua de Nosso Senhor dos Passos?


Ela veio de navio trazida das Europa. Chiquérrima, essa imagem foi encomendada pela Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, localizada no bairro Antônio Dias. Como não falaram o destino para o pobre burro, sem um GPS e pensando só em arrear, seguiu pelo caminho fácil: a descida mais próxima. “É por aqui, eu acho…” foi a frase que levou a imagem direto para outra igreja, a de Nossa Senhora do Pilar, no bairro também chamado de Pilar. 




#PraTodosVerem: A composição da imagem apresenta uma figura de Jesus Cristo, em posição sentada, com um tom de púrpura intenso, segurando uma cruz escura. A estátua ocupa o centro do quadro, atraindo imediatamente a atenção do observador.  A composição é simétrica, com os lados da imagem apresentando elementos decorativos. A estrutura arquitetônica do nicho e os detalhes esculpidos no fundo demonstram a riqueza histórica e artística do local. 
Senhor dos Passos é uma devoção a Jesus Cristo que recorda o caminho desde a condenação até o sepultamento após a crucificação. | Crédito: Ane Souz/PMOP

Segura as rédeas porque é agora que a história fica boa. Por sorte, a imagem de Nossa Senhora das Dores chegou ao destino certo. Já a outra, é como relincham por aí desde aquela época: “bobeou, dançou”.


O Vigário da Igreja do Pilar aceitou o Senhor dos Passos e orientou para que montassem a estátua o quanto antes, afinal, a Semana Santa se aproximava. Os Mocotós, como eram conhecidos os moradores do Pilar, amaram o “mimo” e declararam ser um sinal divino: “Deus guiou o burro para onde a imagem realmente deveria ficar! É o destino!”.


Já os Jacubas, pessoal do Antônio Dias, não gostaram nada disso. E foi assim que o caos se instaurou entre os paroquianos. Um esperto em meio a tantos burros intensificou a rivalidade entre os bairros e o furto do vigário do Pilar fez com que o “conto do vigário” virasse sinônimo de enganação.


Meu inocente ancestral, por outro lado, dizia que o que realmente importava era encontrar a grama mais verdinha e que, caso os Jacubas oferecessem algumas cenouras, ele até daria uns passos a mais em direção ao outro bairro, sem problemas. Mas, infelizmente, essa proposta não veio e teve que se contentar só com a grama mesmo.


No fim das contas do conto, o lado da Nossa Senhora da Conceição concordou com a sugestão do pároco e deixaram a imagem no Pilar, já que a matriz recebia as cerimônias mais importantes. Mas, claro, tudo tem alguma coisa em troca: desde então, a imagem do Senhor dos Passos visita a Paróquia da Senhora da Conceição uma noite ao ano, na passagem da Semana das Dores para a Semana Santa. 


Esse momento é chamado de “Sábado dos Passos”, quando a imagem é levada em procissão da Basílica de Nossa Senhora do Pilar até o Santuário Matriz de Nossa Senhora da Conceição. No dia seguinte, Domingo de Ramos, ela segue para a Praça Tiradentes para a Procissão do Encontro, onde se encontra com a imagem de Nossa Senhora das Dores e depois retorna ao Pilar, encerrando mais um capítulo dessa história. 





#PraTodosVerem: A composição da imagem mostra a Procissão so Encontro em andamento, com a imagem do Senhor dos Passos e Nossa Senhora das Dores no centro do palanque carregado por várias pessoas. A multidão de pessoas está em diferentes estágios ao longo da rua, alguns se movendo em direção ao palanque, e outros se agrupando. A iluminação noturna, principalmente de lâmpadas e velas, ilumina a cena e cria uma atmosfera mística e religiosa. A imagem está enquadrada de uma perspectiva geral, mostrando a extensão da procissão e a grande quantidade de pessoas envolvidas.
Fieis, turistas, comunidade e membros das irmandades acompanham a Procissão do Encontro. | Crédito: Ane Souz/PMOP

O momento é emocionante até mesmo para os burros! Finalmente os humanos estão aceitando bem o conto, que até passou a ser motivo de brincadeira em meio ao conflito. Quando um Jacuba e um Mocotó se esbarram, a provocação é certa. De um lado, os Jacubas soltam: “Desta vez ele vai ficar. Nós não vamos devolvê-lo!”. Do outro, os Mocotós respondem: “A imagem volta pro Pilar mesmo se chover canivete” ou um “Cuida do meu santo”. 


Já para a nossa família, apesar de toda confusão, o conto também teve um final feliz, especialmente para o burro de carga, meu antepassado, que conheceu minha tataratataratataravó - ou sei lá quantas tatas - e se casou na charmosa Ouro Preto, onde constituiu família e fincou as raízes de nossa história. 


Fontes: Ângela Xavier, Deolinda Alice dos Santos, Maria Agripina Neves e, principalmente, o burro imaginário.


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