Crônica | O Coração de Mariana
- Maria Eduarda de Lima
- 11 de mar.
- 7 min de leitura

17:56. Segunda-feira, 27 de janeiro de 2025. O calor intenso do verão parece nunca ter fim no município de Mariana, em Minas Gerais. Nessa época do ano, a essa hora da tarde, o céu oscila entre o azul e as nuvens, ora limpo, ora nublado. E o sol como sempre tão escaldante que às vezes penso que as serras irão derreter. No horizonte, avista-se um amontoado de casinhas coloridas agrupadas no morro verde, que se estende por todo o panorama da paisagem. Há algumas nuvens no céu nesse momento. Mais abaixo, ao redor da área, vários casarios coloniais enfileirados, a maioria de dois andares e com grandes janelas, todas com sacadas, cada uma de uma cor. A estrutura antiga e torta acrescenta charme às casinhas. O trânsito agitado não surpreende Moisés, catador de garrafa pet:
— Essa hora do dia aqui é assim mesmo, bem movimentado - diz ele.
As calçadas estreitas e as ruas de pé de moleque não atrapalham o fluxo dos moradores locais, que andam de um lado pro outro, a todo vapor. No meio do cenário, um grande retângulo composto de paralelepípedos. Vazio, exceto pela estrutura de luminárias localizada no centro. No seu topo encontram-se cinco arandelas já acesas. À margem do retângulo, um chafariz de parede inativo envolto por uma escadaria de nove degraus, uma em cada lado da estrutura.
Atrás do chafariz, atravessando a rua e logo após um escadão, está a pomposa e imponente Catedral Basílica da Nossa Senhora da Assunção, ou, como popularmente conhecida, Catedral da Sé, um dos pontos turísticos do centro histórico de Mariana e a grande atração do lugar que descrevo. Contudo, o protagonista aqui não é a Catedral, e sim o grande e largo retângulo de paralelepípedos que descrevi acima, mais conhecido como Praça Cláudio Manoel da Costa, ou “Praça da Sé”, como é chamada carinhosamente pelos marianenses. O nome da praça foi dado em homenagem ao advogado, poeta e inconfidente Cláudio Manoel da Costa, que nasceu e viveu na cidade entre 1729 e 1749. Localizada no final da Rua Direita, a praça fica entre os principais corredores comerciais de Mariana, sendo o ponto de partida para a exploração das atrações turísticas da cidade.
A princípio, lá em 1747, com o projeto urbano de José Fernandes Alpoim, o espaço que hoje é a praça foi estabelecido e levou o nome de Largo da Matriz, por ser a área fronteiriça da Catedral da Sé. A praça ainda conserva o mesmo desenho retangular da época, quando a cidade ainda era chamada de Vila do Carmo. Com o processo de reconstrução de Alpoim, a praça passou a representar o novo centro administrativo colonial, e um pelourinho foi construído no centro da área como representação de poder e autoridade. Por conta das ações da Lei do Ventre Livre, o pelourinho foi demolido em 1871 e reconstruído posteriormente no século XX, em outro local, na Praça Minas Gerais, em frente a Casa de Câmara e antiga cadeia. Atualmente, a Praça da Sé possui uma estrutura central composta por luminárias em seu topo, que divide o espaço junto com um chafariz histórico, construído algumas décadas depois do projeto de Alpoim.

18:10. Estou sentada no quarto degrau da escadaria, ao lado esquerdo do chafariz. Nhec-Nhec-Nhec. Consigo ouvir o ranger da maçaneta de ferro enquanto a mulher fecha o toldo da loja de roupas da esquina. Uma mãe brinca com seu filho no centro da praça enquanto Moisés, o catador de garrafa pet, vasculha ligeiramente um dos quatro cestos de lixo localizados estrategicamente em cada ponto da área. Cinco cachorros de rua observam atentamente o catador, na esperança de receberem algum lanchinho das sobras. Uma revoada de pombos sobrevoa a praça em círculos, sem parar, como se fosse uma corrida e estivesse em disputa o último miolo de pão da terra. Um espetáculo. Mas ninguém para pra ver, aparentemente, todos estão muito ocupados com suas próprias tarefas.
Sandália, sapato social, tênis de corrida, botina, chinelo de dedo. Todos cruzando a praça como um jato, provavelmente indo para lugares muito diferentes. Enquanto isso, à minha direita, uma mulher de tranças jumbo e blusa vermelha, aparenta ter uns quarenta e tantos anos, conversa incansavelmente sobre sua história de vida com uma mulher de conjunto vinho e coque desajeitado:
— Eu fazia tudo dentro de casa, Gisele, e ainda apanhava. Buscava lenha às cinco da manhã, tomava banho em água gelada [...] Moço, cê tem cigarro aí?
— Tenho não - Disse o homem, sem parar de andar.
— E às vezes eu tinha que comer lavagem! - Ela continuou.
“Sem graça”, “Não tem atrativos”, “Essa praça não passa de um largo”, são alguns dos comentários que algumas pessoas compartilham sobre a Praça da Sé. Eu, particularmente, acho fascinante todo esse movimento cotidiano na praça, quantas histórias não passam por aqui diariamente? São centenas, milhares! A carga histórica desse lugar é tão grande quanto sua simplicidade. Acredito que poucas pessoas têm a habilidade de imaginar todo o movimento que aqui acontecia no século XVIII, e por isso, não conseguem vislumbrar a maior atração da praça, sua história.
Por exemplo, você sabia que, há 277 anos, em 1748, a Praça da Sé foi palco da cerimônia de posse do primeiro bispo de Minas Gerais? Nunca se viu tamanha suntuosidade e ostentação por aqui. Veio gente de toda a capitania para prestigiar a entrada solene do bispo. A Sé, na época arborizada, foi iluminada com luzes de azeite, as ruas foram enfeitadas com flores e jardins. Das sacadas dos sobrados em volta, pendiam toalhas bordadas. No meio da praça, foi armado um grande palanque com toldo de damasco carmesim, onde esperavam algumas autoridades para saudarem o bispo, Dom Frei Manoel da Cruz, que chegou montado em um cavalo branco coberto com tecido adamascado, guarnecido de galão e franjas de ouro, acompanhado da procissão. Manoel da Cruz exerceu seu episcopado até seu falecimento, no ano de 1764. Desde sua nomeação, a arquidiocese de Mariana teve um total de quinze bispos e seis arcebispos. Sempre que um novo bispo e arcebispo de Mariana é eleito, acontece na Praça da Sé a solenidade de posse.
18:24. Ouço o ruflar das asas dos pombos em conjunto toda vez que algum cãozinho chega perto para brincar, mas logo as aves voltam ao chão para continuar devorando os miolos de pão que o catador jogou especialmente para elas. O calçamento de pedras da rua faz o atrito dos pneus dos automóveis com o chão ficar ainda mais barulhento, e o barulho intensifica a essa hora do dia, por conta do trânsito turbulento, devido ao horário de pico. Nessa hora também é comum ver algumas pessoas caminhando ou correndo por aqui, o que, na verdade, me surpreende, já que a Sé é bem movimentada pelo cotidiano dos moradores e turistas. Mas, aparentemente, apesar do movimento, a praça é um bom lugar para caminhar.
A mulher de tranças continua sua falazada (que está mais para um monólogo) sobre alguns episódios marcantes da sua vida:
— Eu tirei onze famílias da rua, Gisele. Invadi uma casa em BH e coloquei todo mundo lá, e disse que ninguém ia sair dali sem casar! [...] Ô moço, cigarro, cê tem? - Perguntou para um homem vestido com um uniforme de gari que subia as escadas.
—Tenho - Disse o homem, tirando um maço de cigarro branco do bolso traseiro da calça.
—Obrigada, moço - Respondeu a mulher, contente. — Tem isqueiro aí?
Enquanto isso, Moisés, o catador de garrafa pet, tenta apartar uma briga de cachorros de rua, como se, de alguma forma, ele tivesse alguma responsabilidade sobre eles. Um grupo de adolescentes com uniforme do colégio desce as escadas e uma mulher vendendo bombons os aborda. Isso me faz lembrar que periodicamente a praça comporta uma feira de artesanatos. Na realidade, o Largo da Sé já foi muitas coisas. Entre 1731 e 1741 foi abrigado aqui a Casa de Câmara, Audiência e Cadeia, e posteriormente, após o bispado, o prédio ganhou uma construção com melhor estrutura na Praça Minas Gerais. Nos anos 2000, a Praça da Sé comportou também um estacionamento.
Inclusive, no ano de 2007, no decorrer da obra de restauração da praça, foram descobertas, durante as escavações, ossadas do século XIX. De acordo com documentos históricos, as ossadas pertencem a vítimas de uma epidemia de varíola que não puderam ser enterradas na Igreja da Sé, e foram sepultadas em um cemitério feito na praça entre os anos de 1850 e 1855. A prática de enterrar as pessoas na igreja ou nos arredores era comum até o século XIX, isso acontecia devido à crença religiosa de que ser sepultado em um lugar sagrado aumentaria as chances de salvação da alma. O local de sepultamento também refletia a posição social. Nobres, autoridades e membros do clero podiam ser enterrados próximos ao altar, já as pessoas de menos influência podiam ser enterradas apenas nos arredores ou no lado de fora das igrejas. Após a avaliação de técnicos, o cemitério encontrado no Largo da Sé foi transferido para a Capela do São Gonçalo.
18:48. O céu está numa mistura de azul, rosa e amarelo, e as estrelas começaram a aparecer. A luz das luminárias no centro da praça está mais forte. O coletor agora está juntando o lixo que os cachorros esparramaram pelo chão.
— Sliu, vem aqui! - Disse a mulher de tranças, aparentemente um dos cachorros é dela. - Ele registrou Kelly e não me registrou - Continuou seu interminável monólogo.
— Não acredito! - A mulher de conjunto vinho finalmente se manifesta.
— Ninguém é obrigado a gostar de mim não, mas desaforo eu não levo pra casa - Completou. — Eu sou verdadeira, sou curta e grossa. Eu sou feliz do jeito que eu sou, Gisele.
19:12. A tal da Gisele disse que ia ao banheiro mas ainda não voltou. Ouço crianças chorando, cachorros latindo e passos na escada. Já está ficando tarde. O movimento de pessoas diminuiu e o de carros aumentou. A Praça da Sé agora está iluminada pelas luzes dos postes em volta e pela lanterna dos automóveis. Ainda mais bonita. A mulher de tranças jumbo aparentemente cansou de esperar Gisele, pegou uma sacola de supermercado em que guardava alguns panos e foi embora. Moisés, o catador, também acaba de juntar suas coisas, subir em sua bicicleta e partir.
Olhando a praça um pouco mais vazia, veio à tona o domingo em que eu passei por aqui de madrugada. Não havia uma alma além de mim e meus amigos. Estava deserta. Brinquei que estava me sentindo em uma cidade cinematográfica de época. Apesar de vazia, percebo hoje que, na realidade, independentemente da hora, a Praça da Sé é sempre movimentada. Movimentada por memórias seculares que fazem parte desse espaço, que aqui ainda habitam.
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