Crônica | “O Tempo Está Passando, Sueli”
- Ilidio Ribeiro
- 26 de fev.
- 3 min de leitura
Atualizado: 11 de mar.
Há séculos o tempo é medido de diversas maneiras, a posição do Sol em relação à Terra, a ampulheta, o cronômetro, relógio e agora o próprio smartphone. Na mitologia greco-romana, Cronos é a personificação do tempo. Ele é descrito como irreversível, um deus que devorou seus filhos. Porém, existe um aspecto curioso em sua história: o próprio deus do tempo foi derrotado e morto pelos seus filhos, suas próprias criações. Essa parte da mitologia traz uma reflexão profunda. Muitas vezes, nós mesmos, ao criar e planejar, acabamos nos tornando vítimas das armadilhas que impomos a nós mesmos. Somos prisioneiros de expectativas que estabelecemos ou daquelas que a sociedade nos impõe. E, assim, somos engolidos por elas.
Começamos 2025. O coração ainda está se acomodando das férias enquanto vislumbramos os planos para o novo ano. Mal começou e esse ano já temos: incêndios em Los Angeles, nova gestão nas cidades, chuvas intensas, calor absurdo, buracos nas ruas, temporada de premiações internacionais, o novo álbum da sua artista preferida, novos nascimentos e novos obituários, dez anos do rompimento da barragem no subdistrito Bento Rodrigues, a posse do presidente Trump - que representa uma direita conservadora que pode mudar as relações internacionais - e… ufa… Meu Deus, é muita coisa acontecendo já em tão pouco tempo!
Caetano Veloso canta que o "tempo, tempo, tempo é um dos deuses mais lindos". Mas, por que? Que Deus é esse que molda a ordem dos acontecimentos a ponto de nos sufocar? Em Alice no País das Maravilhas (filme de 1951 adaptado do livro clássico de Lewis Carroll), o coelho fica com um enorme relógio lembrando que está atrasado para o seu grande evento [spoiler: é um chá da tarde], para ele tão grande como a urgência de chegar lá. O tempo também é precioso em Super Mario Bros., jogo do Nintendo de 1985 que apresenta um cronômetro no canto superior da tela e indica o tempo restante para o jogador cruzar a linha de chegada, passando por inúmeras adversidades.

Na série Tapas e Beijos (Globo, 2011-2015), há uma cena onde, Fátima (Fernanda Torres), em meio às conversas sobre relacionamentos frustrados e a rotina na loja de vestidos com sua amiga Sueli (Andréa Beltrão), faz um gesto estalando os dedos no ar e solta a icônica frase: “O tempo está passando, Sueli.” A cena voltou a viralizar quando Fernanda Torres foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz por Ainda Estou Aqui (2024), de Walter Salles — mais de 20 anos após o feito de sua mãe, Fernanda Montenegro em 1999. Sim, Sueli, o tempo está mesmo passando…e passou tanto que estamos contando o tempo para a sua vitória na premiação em março.
Já já será dezembro e vai ser a mesma história: repensar os planos feitos para o ano que não se cumpriram porque “não deu tempo”, planejar as novas - ou não tão novas - promessas que serão feitas na virada, esperar os fogos de artifício, comer doze uvas embaixo de uma mesa ou, ainda de forma mais simples, sentar em um banco da rodoviária e ver o tempo passando até o ônibus chegar. Não importa o que fizemos ou não fizemos no passado, o que importa agora é o que faremos daqui para frente com o tempo que nos resta, mesmo sem saber o que nos aguarda. Ah, tempo, tempo, tempo! Segue seu curso: impiedoso, incontrolável, mas que nos enche de esperança. Vai dar tempo!
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